O que é e porque importa
Um trabalho grande não cabe numa só conversa. O Claude trabalha dentro de uma memória limitada, a janela de contexto: lá dentro estão o chat, os ficheiros que leu e os resultados dos comandos. Quanto mais avanças, mais ela enche.
Quando chega perto do limite, o Claude Code compacta-a sozinho: resume a conversa. Os teus pedidos e o código importante ficam, mas as instruções que deste no início podem perder-se. E cada sessão nova começa do zero, sem a conversa anterior.
Por isso, se o plano está só no chat, passado um dia já lá não está. Eu guardo-o num ficheiro do projeto: cada sessão lê-o no início e atualiza-o no fim. O ficheiro faz de memória e as sessões são turnos de trabalho. Depois, um despertador relança o trabalho quando ele para.
1. O ficheiro de bordo
Cria na pasta do projeto um ficheiro DIARIO-DE-BORDO.md com este conteúdo:
# Objetivo [Uma frase. Ex.: "Nova página de preços, online, testada no telemóvel".] ## Feito - [ ] (as sessões assinalam aqui o que terminaram, com a data) ## Falta - [ ] [primeira parte] - [ ] [segunda parte] ## Decisões tomadas - (cada sessão escreve aqui o que decidiu sozinha e porquê) ## Onde parei (a última sessão escreve aqui o ponto exato de onde recomeçar)
O objetivo é uma frase só, e tem de dizer quando o trabalho está mesmo acabado. «Nova página de preços, online, testada no telemóvel» é diferente de «faz a página de preços»: a primeira tem um fim, a segunda não.
Em «Falta» põe partes pequenas, que uma sessão fecha de uma vez: um ecrã, uma ligação, uma correção. Se uma parte é «faz o pagamento todo», é grande demais. Se não sabes como a partir, pede ao Claude antes de começar:
Lê o DIARIO-DE-BORDO.md e o código do projeto. Reescreve a secção 'Falta' em partes pequenas e por ordem, cada uma suficientemente pequena para a terminares numa sessão e a poderes testar. Não escrevas código.
«Decisões tomadas» é, para mim, a parte mais útil. Quando voltas passados dois dias e encontras uma escolha estranha, está lá escrito porquê. E a sessão seguinte não a desfaz.
2. A frase que abre cada sessão
Sempre que abres uma sessão para este trabalho, a primeira coisa que escreves é esta:
Lê o DIARIO-DE-BORDO.md antes de fazeres qualquer coisa. Trabalha só no primeiro ponto de 'Falta'. Quando o terminares e os testes passarem, passa-o para 'Feito' com a data, escreve as decisões tomadas e atualiza 'Onde parei'. Se a conversa ficar demasiado longa, atualiza o ficheiro e para: outra sessão retoma a partir daí.
«Antes de fazeres qualquer coisa» evita que o Claude mexa em ficheiros antes de saber em que ponto estamos. «Só no primeiro ponto» mantém a sessão curta. «Os testes passarem» quer dizer que a parte funciona, não só que está escrita: se não tens testes, põe a tua própria verificação, tipo «a página abre sem erros».
A última frase é a que faz o trabalho durar dias. A sessão não tem de chegar ao fim a todo o custo: tem de deixar o ficheiro em ordem, para que a seguinte recomece limpa.
Se tiveres de fechar tu a meio de uma parte, pede isto antes:
Para aqui. Atualiza o DIARIO-DE-BORDO.md: em 'Onde parei' escreve o ponto exato, o que já mudaste e qual é o próximo passo. Não deixes nada só no chat.
Se não queres colar a frase todas as vezes, podes escrevê-la no ficheiro CLAUDE.md do projeto: o Claude Code lê-o no início de cada sessão e volta a carregá-lo também depois de uma compactação.
3. Quando a memória enche
Não precisas de uma sessão longuíssima: fecha-a e abre uma nova com a mesma frase. Recomeça a partir do ficheiro, não do chat.
No Claude Code há três comandos que te ajudam:
- /context mostra-te quão cheia está a memória e o que a ocupa.
- /compact resume a conversa e liberta espaço, sem sair da sessão. Podes dar-lhe um foco, tipo /compact mantém as decisões.
- /clear abre uma conversa nova e vazia. A antiga não se perde: recupera-la com /resume.
Para um trabalho de vários dias prefiro /clear e a frase de arranque. Com a compactação, é o Claude Code que decide o que fica. Com o ficheiro, sei exatamente de onde recomeça.
Para reler uma conversa anterior, no terminal o claude --continue reabre a última sessão da pasta e o claude --resume deixa-te escolher de uma lista. Para avançar, porém, recomeça-se a partir do DIARIO-DE-BORDO.md.
4. O despertador
O despertador é uma verificação automática que de vez em quando vê se o trabalho está parado e o relança. No vídeo disse-o assim:
de hora a hora verifica o DIARIO-DE-BORDO.md; se 'Onde parei' não mudou e 'Falta' não está vazio, abre uma sessão nova com a frase de arranque
O Claude Code pode arrancar um trabalho sozinho com horário, de três maneiras. O que muda é onde corre e o que tem de ficar ligado.
Na app de computador: uma tarefa agendada
É a que eu uso para isto. Na app de computador, no separador Code, abre Routines, cria uma nova rotina e escolhe Local. Escreve as instruções, escolhe a pasta do projeto e a frequência, por exemplo Hourly, ou seja, de hora a hora. Corre no teu computador, por isso vê os teus ficheiros, incluindo o DIARIO-DE-BORDO.md.
Há um pormenor que muda o prompt: sempre que arranca, a tarefa já abre ela própria uma sessão nova. Por isso, nas instruções pões diretamente a verificação e o trabalho:
Lê o DIARIO-DE-BORDO.md. Se 'Falta' estiver vazio, não faças nada e para. Caso contrário, trabalha só no primeiro ponto de 'Falta'. Quando o terminares e os testes passarem, passa-o para 'Feito' com a data, escreve as decisões tomadas e atualiza 'Onde parei'. Se a conversa ficar demasiado longa, atualiza o ficheiro e para: outra sessão retoma a partir daí.
Só corre com a app aberta e o computador acordado: se o computador estiver a dormir, essa volta é saltada. E se a volta anterior ainda estiver a decorrer, a nova não arranca. Antes de a deixares sozinha, carrega em Run now e aprova as permissões que pedir com «always allow», senão bloqueia no primeiro pedido e fica à tua espera.
No terminal: /loop
Se trabalhas no terminal, o /loop repete um prompt a intervalos enquanto a sessão continuar aberta: por exemplo /loop 1h seguido da verificação a fazer. Mas não abre uma sessão nova: o prompt volta à mesma conversa. Para se fechares o terminal e desliga-se sozinho ao fim de sete dias. Serve para um dia de trabalho, menos para o deixar andar sozinho.
Na nuvem: as rotinas
Com /schedule crias uma rotina que corre nos servidores da Anthropic, mesmo com o computador desligado, no máximo uma vez por hora. Cada volta é uma sessão nova, mas sobre uma cópia acabada de clonar do teu repositório GitHub, não sobre os ficheiros do computador: o DIARIO-DE-BORDO.md tem de estar no repositório. As alterações vão para um branch à parte e a volta seguinte recomeça do branch principal, por isso diz no prompt em que branch trabalhar.
Nada de magia: um diário de bordo e um despertador.
Os erros mais comuns
- Ter o plano só no chat: depois de uma compactação ou de uma sessão nova, já lá não está. Escreve-o no DIARIO-DE-BORDO.md.
- Partes grandes demais em «Falta»: a sessão enche a meio do trabalho. Parte-as até cada uma fechar numa sessão.
- Fechar a sessão sem atualizar o ficheiro: a seguinte recomeça às escuras. Antes de fechar, pede sempre que atualize «Onde parei».
- Não dizer quando uma parte está acabada: o Claude passa-a para «Feito» assim que a escreve. Pede que os testes passem, ou põe a tua própria verificação.
- Deixar a tarefa agendada sem a ter experimentado: bloqueia no primeiro pedido de permissão. Arranca-a uma vez com Run now e aprova o que for preciso.
Checklist
- O DIARIO-DE-BORDO.md está na pasta do projeto
- O objetivo diz quando o trabalho está acabado
- Cada ponto de «Falta» fecha numa sessão
- Cada sessão começa com a frase de arranque
- Antes de fechar, «Onde parei» está atualizado
- O despertador foi experimentado uma vez à mão
Perguntas frequentes
Tenho de lhe chamar DIARIO-DE-BORDO.md?
Não, o nome és tu que escolhes. O que conta é que seja o mesmo no ficheiro, na frase de arranque e no despertador.
Posso trabalhar eu também enquanto o despertador está ativo?
Sim, mas não ao mesmo tempo no mesmo ficheiro. Quando te sentares a trabalhar, põe a tarefa agendada em pausa e volta a ativá-la quando acabares.